domingo, 21 de março de 2021

A vida em Ciclos


Abri minha janela dos fundos hoje e vi muitas folhas caindo das árvores. Borboletas alaranjadas voavam aqui e ali. Assisti esse espetáculo como se nunca tivesse visto nada igual e compreendi o quão sábia é a natureza.

As árvores perdem suas folhas no outono para poderem dar frutos, e depois, na primavera, recuperam todo o seu viço e florescem novamente.

A vida da gente é assim também. Só que não compreendemos isso, por isso sofremos.

Às vezes passamos por perdas e ficamos nos debatendo, sofrendo por elas. Mas se em vez disso compreendermos que elas são necessárias para que possamos frutificar, poderemos voltar a florescer, recuperamos o brilho.

Com o fim do verão foi-se embora o calor, a luz intensa, a vida em abundância. Outono é época de desfolhar-se, despir-se. Jogar fora tudo o que nos enfraquece, livrarmo-nos do peso, mesmo que isso signifique ficarmos expostos, nus e sem o viço de outrora.

Jogar fora as folhas que nos adornam e dão vida, mas que agora só sugam a energia vital, tão necessária para que em breve possamos enfrentar os rigores do inverno sem sucumbir, e poder voltar a florir na primavera.

Hoje estamos no outono. Amanhã enfrentaremos o inverno rigoroso, frio, sombrio. Mas depois a primavera certamente virá e com ela toda a cor e alegria serão novamente parte da paisagem e em seguida teremos toda a luz e o calor do verão.

A vida é feita de ciclos. Quando um se encerra, outro já está começando e assim sucessivamente.

Precisamos estar prontos para o que vier. Compreensão, aceitação, resignação e atitude para não deixar passar o tempo certo de florir.

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*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 14/05/2011 e editado e republicado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Lágrima

Ela surgiu tímida, havia percorrido 
um longo caminho para estar ali.
Partiu do fundo da alma, onde moram todas as emoções, passou pelo coração para separar o que era dor do que era amor, superou as barreiras da razão que teima em querer comandar tudo, até finalmente brotar ali no cantinho do olho.
Primeiro parou, como se admirasse a paisagem e o ar fresco, depois vagarosamente, lançou-se no vazio. 
Foi perdendo a timidez aos poucos, e exibindo-se despejou pelo caminho todo sentimento que trazia. 
Desfez-se de toda a dor e desespero e agora jaz, na curva macia do lábio, tornando ainda mais úmido o beijo de amor.

*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 14/09/2010.

Ouvir o silêncio

Às vezes precisamos ouvir o silêncio. A ausência de estímulos auditivos por um breve período de tempo é importante para que possamos ouvir aquilo que não emite sons.

Silêncio para ouvir nossos pensamentos, com clareza e entendimento, sem interferências. Dar voz à nossa razão.

Ouvir o coração, compreender os nossos sentimentos, suas origens e consequências.
Silêncio para ouvir a voz de Deus. Rezamos pedindo à Ele que nos dê respostas, mas não nos damos ao trabalho de parar para escutá-Lo.

 
É no silêncio, no recolhimento que deixamos fluir o que há de mais secreto em nós, aquilo que provém das profundezas da nossa alma, toda a sordidez e também toda a beleza que se esconde em nosso íntimo.

E só trazendo estes sentimentos à tona podemos separar aquilo que é bom para ser cultivado, daquilo que devemos jogar fora.

É durante essa seleção que iniciamos a compreensão das respostas que Deus nos envia, passamos a entender o que Ele quer de cada um de nós e vamos nos livrando do peso daquilo que nos incomoda.

Talvez não seja possível resolver nossos problemas só com alguns minutos de silêncio, mas certamente é possível termos uma visão mais clara da nossa vida após ouvir a voz de Deus falando conosco através da nossa consciência.

Shhhh.... vamos ouvir.....

*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 04/09/2010.

A Cigarra e a Formiga


Segundo a Wikipédia, A Cigarra e a Formiga é uma das fábulas atribuídas a Esopo e recontada por Jean de La Fontaine.

Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,

Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!

- "Eu lhe pagarei", disse ela,

- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."

A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.

"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.

- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."

- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!"

Só que a história não termina aí. Na MINHA versão, depois de negar ajuda à cigarra e vê-la morrer de fome e frio, a formiga sente-se culpada, fica deprimida e como já sofresse com o stress de trabalhar sem descanso, morre também de um enfarte fulminante.

Achou muito triste? Sinistro? Mas assim tem sido as relações das pessoas. Cada um pensa só em si. A cigarra pensou só na sua diversão, no seu prazer e acabou por morrer de fome. Por sua vez a formiga pensou somente no trabalho e em juntar bens que não conseguiu usufruir porque perdeu sua vida para o remorso e as doenças causadas por uma vida onde não se permitiu ser feliz.

Mas existe uma nova versão para esse final de história. 

Nessa nova versão, após tomar uma carraspana da formiga, a cigarra passa a cobrar cachê para cantar, podendo com isso fazer o que mais a faz feliz e ainda se precaver para o futuro e usar o seu cachê para comprar os mantimentos que a formiga juntava e a formiga aprendeu a divertir-se com a cantoria da sua nova amiga e percebeu que o seu fardo ficava mais leve quando dançava ao som da música e que isso não a impedia de trabalhar. As duas viveram uma vida longa e feliz, cada uma respeitando as escolhas da outra e ajudando-se mutuamente.

#FIM.

Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 23/09/2011.

O Monstro da Cortina.

O monstro da cortina
Nesta foto, eu sou o bebê no colo da minha madrinha Gina
 ao lado de minha mãe. Ao fundo, a amedrontadora cortina,
que me acompanhou por quase 20 anos.
Foto: Arquivo pessoal 13/12/1970

 Era uma cortina feia. Escura, com uns desenhos estranhos e indecifráveis a cada 30cm do pano. Para completar, um babado feito com o mesmo tecido horroroso.
Esta cortina "enfeitou" o meu quarto durante muitos anos.

Cresci sem entender muito bem o tal desenho e dentre muitas teorias acabei acreditando ser um monstro bem feio. Vários monstros se repetiam, se espalhavam por toda a cortina e ficavam maiores e mais assustadores à noite. Morria de medo da tal cortina. Quando as luzes se apagavam, a penumbra deixava aquela coisa ainda mais aterrorizante. Me encolhia na cama, fechava os olhos com força e tentava não pensar. Rezava pedindo a proteção do meu anjinho da guarda.

Quando fui ficando maior, adotei a estratégia de ficar de costas para a cortina, sem vê-la o medo era menor. Lembro de ter feito queixa à mãe uma ou duas vezes, mas ela ria e eu me sentia desamparada diante do monstro da cortina.

Um belo dia, já crescida, resolvi encarar a tal criatura. Caminhei decidida de encontro à cortina e munida de muita coragem encarei a fera de perto, de frente. Imaginem minha cara de espanto quando percebi que o tal monstro nada mais era do que flores? Três ou quatro rosas juntas num estranho bouquet repetiam-se por todo o tecido.
 
Passado o espanto, achei graça daquilo. Até comecei a achar a tal cortina "bonitinha". Mas gostei mesmo foi quando a mãe deu um jeito de sumir com aquilo.

*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 24/08/2010.

A Analogia do Cacto

Esses dias uma amiga me disse que assemelhava-se a uma rosa, flor suave e perfumada, mas cheia de espinhos. Fui pra casa divagando sobre esta analogia, pensando se ela se apicaria também à mim.

Cheguei a conclusão de que eu me pareço mesmo é com um cacto.
O cacto é uma planta rude, cheia de espinhos, vive em regiões de clima inóspito e cresce em solos de calcário e areia. Por passarem longos períodos sem chuva, possuem raizes profundas para extrairem da terra o que necessitam e seus espinhos servem para ajudar a reter a umidade e proteger sua delicada flor de perfume intenso. Se adaptam facilmente a qualquer lugar e circunstância, bastando para que vivam e mantenham seu vigor e sua cor, apenas um bocado de sol.

Assim sou eu. Não sou bonita, mas tenho os meus encantos. Sou áspera e agressiva às vezes, mas para me defender. Sou feliz apesar da vida difícil e repleta de situações adversas. Me adapto fácil à realidades novas, às vezes sofro um pouco, mas acabo sempre me moldando ao ambiente. E pra que eu exale o meu perfume e mostre o que há de melhor em mim, só preciso de um pouco de carinho e atenção.

*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 17/08/2010.

Torneira Pingando

Estou sentada à mesa da cozinha, tentando me inspirar para escrever alguma coisa e ping, ping, tem algo me torturando ping, ping, ping.

Fechada com displicência a torneira pinga, ping, teimando em dar o ar de sua graça, sem graça. ping, ping.


Tô com uma preguiça danada de ir até lá e acabar com a sinfonia , mas essa música não ajuda a me concentrar.


Levanto os olhos e  encaro  a torneira como a lhe dizer: - "Por que no te callas?" mas ela continua lá, impassível, nem me olha.

Desisto de tentar fazer com que ela obedeça ao meu pensamento. Levanto. 

Caminho decidida até a pia e fecho a maldita torneira com força. Tá vendo só? Venci. Volto confiante ao meu lugar.

Ao me sentar, encaro a dita cuja com ar de superioridade. Mas a danada ri de mim, pois guardou 3 gotas d'água em seu interior e as solta agora, vagarosamente, zombando de mim que a fito calada do outro lado da cozinha.

É. Chegou o dia da torneira debochar de mim. O que mais virá daqui pra frente...?

*Texto originalmente publicado no blog KTRALHAS em 18/08/2010.